Cati Freitas

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Sentia saudades das margens do meu rio.

Sentia saudades das margens do meu rio. Gosto de o adentrar e ficar sozinha abaixada entre as pedras pra sentir o salpicar das águas nos meus cabelos, nos meus seios e nas minhas coxas.
É um momento só meu. É quase o ato da minha maior loucura. Não posso mais negar a mim mesma e, nem a ninguém, que tenho um jeito primitivo de sentir. Não falo de um modo bruto, mas de uma liberdade intima de experienciar e de querer viver, assim como quem suga sedenta e vagarosamente o sumo de um fruto doce. Amo ser mulher, de possuir todos os sentidos e não somente o sexto. Sinto até um tonto poder a mais só por sê-la.
Ainda é primavera e estou sentada na grama na companhia da minha memória. A da pele. As lembranças ocorrem-me no pré-instante do contar. Ontem, e num tom de quem me confere um certo mérito, disseram-me que tenho um tanto de Intelectual. Fiquei pensativa a respeito. Faço um uso astronómico da minha intuição. A minha linguagem é simples e instintiva. Tenho raciocínio, tenho talento para algumas matérias, mas se eu tenho de facto inteligência, naquele sentido que quiseram dar, eu só posso dizer que só pode ser um tipo de inteligência chamada «sensibilidade». E, ainda assim, a minha, só a minha. Desde muito cedo que tenho uma atração por decifrar o código do ser-se humano. Nunca aprofundei os assuntos que o tipo de intelectuais a quem sinto que se referiam aprofundam. O meu maior foco e o meu maior desafio sempre foi tentar descobrir como desfolhar-me, assim como se faz com o milho. Também nunca sei até que ponto me exponho demais quando pego na caneta para escrever. Lembro-me de uma frase de Fernando Pessoa que diz: "falar é o modo mais simples de nos tornarmos desconhecidos". Aceitei-a como o único dogma na minha vida, vou seguindo com o resto das certezas variáveis. Só sei falar de mim mesma - peço desculpas por isso. Gostaria de poder fazer mais pelo Mundo. Muito mais que escrever e cantar. Isto que faço é muito pouco. A minha força e a minha fraqueza continuam a travar lutas entre elas, as sensações apelam-me a vivências que tanto têm de fortes e reprováveis, como de inocentes e cristalinas. Dentro da consciência do meu mundo em bruto lapido-me como um diamante. Ora, nada disto tem que ver com intelectualidade...
Continuo a olhar o rio. As águas são o meu sangue. Não estou tão selvagem nos modos como antes, e este "antes" não é um antes de uns anos atrás, é um "antes" secular! Sinto-o, à medida que tento escrever sobre a sensação que ele me dá. Estou mais calma, mais senhora e mais donzela. Adquiri novos princípios e novos receios. Se assim foi é porque assim deve ser. Continuo com a liberdade de pensar. É nela que estou, sem disfarce. Todos os dias eu desfaço antigas crenças e construo-me em novas. Luto muito contra as ideias que tentam fixar-se. Faço uma limpeza de vez em quando. Mudando de assunto: gosto do som da água a cair. Estou a comer uma uva enquanto escrevo, grande e sumarenta. Tem umas grainhas que dispensava, mas muito sumarenta. Trinquei-as sem querer, às grainhas, não gostei da sensação. Aceito-as, mas dispensava-as. No entanto, quanto mais as aceito, às grainhas, mais como as uvas sem as trincar, o sumo predomina. Tudo está na forma como lido com o conteúdo. A propósito do rio, ainda aqui estou, e ouso dizer que aqui ficarei para sempre, até ser Verão.

- Cati Freitas -

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